Em 1968, uma empresa de limpeza predial foi fundada em Salvador, na Bahia, com o nome de Predial Limpeza e Higienização. Em 2024, essa mesma empresa registrou R$ 14,8 bilhões de receita líquida, crescimento de 39% em relação ao ano anterior, e concluiu a 54ª aquisição da sua história. O Grupo GPS, hoje o maior prestador de serviços terceirizados do Brasil, é um dos estudos de caso mais didáticos sobre o poder do M&A como estratégia de crescimento inorgânico. Este artigo explica como esse processo funcionou, o que o mercado de facilities tem a ver com isso e o que o case do GPS revela para empresários que pensam em vender, adquirir ou crescer por meio de fusões e aquisições.
Resposta rápida
O que é o Grupo GPS e o que ele tem a ver com M&A?
O Grupo GPS é o maior prestador de serviços terceirizados do Brasil, líder no segmento de facilities. Em 2024 registrou R$ 14,8 bilhões de receita líquida após concluir sua 54ª aquisição. A empresa é um dos estudos de caso mais didáticos sobre crescimento inorgânico via M&A no Brasil: começou como uma empresa regional de limpeza em 1968 e construiu sua liderança por meio de aquisições sistemáticas de empresas complementares.
O mercado de facilities no Brasil movimenta R$ 60 bilhões/ano e tem projeção de crescimento de 7,1% ao ano até 2029, segundo a ABRAFAC. Com apenas 7% de concentração nos três maiores players, o setor está no início de um ciclo de consolidação que setores como educação e saúde já percorreram.
Neste artigo você vai ler:
- → O que é o Grupo GPS e como ele se tornou líder por aquisições
- → O poder do M&A no segmento de facilities
- → O que é o segmento de facilities e por que ele atrai M&A
- → Um mercado de R$ 60 bilhões e 89% ainda fragmentado
- → Crescimento orgânico vs. inorgânico: o que os números do GPS ensinam
- → Cross-sell e sinergias: o modelo que multiplica o valor das aquisições
- → O que esse case revela para empresários de médio porte
O que é o Grupo GPS e como ele se tornou líder por aquisições
O Grupo GPS é hoje o maior prestador de serviços terceirizados do Brasil, líder nacional nos segmentos de facilities, segurança, logística indoor, manutenção, serviços industriais e alimentação corporativa. Em 2024, a empresa registrou receita líquida de R$ 14,8 bilhões, EBITDA ajustado de R$ 1,5 bilhão e lucro líquido de R$ 783 milhões, crescimento de 7% em relação a 2023. Para 2025, a expectativa era de receita em torno de R$ 18 bilhões, alta de aproximadamente 20%, segundo projeções divulgadas pelo grupo.
Mas o número que mais revela a estratégia da empresa não é o de receita. É o de aquisições: 54 operações de M&A concluídas desde que a companhia iniciou seu programa de crescimento inorgânico. A trajetória tem uma lógica clara e replicável que vale a pena entender.
A trajetória de crescimento do Grupo GPS por M&A
1968
Fundação em Salvador (BA) como Predial Limpeza e Higienização. Empresa regional de serviços de limpeza predial.
2008
Início do programa de M&A. Primeiras aquisições: In Haus, Ecoplan e Planem. Expansão da gama de serviços.
2015-19
Fase de aceleração: Mopp, Top Service, Conserbens, Engeseg, Proevi, Proguarda, Sempre, Magnum, RZF, Poliservice e mais 8 em 2019. Construção da plataforma multi-serviços.
2020
IPO na B3. Captação de recursos para continuar a estratégia de aquisições com acesso ao mercado de capitais.
2024
Maior aquisição da história: GRSA (catering e alimentação corporativa) por R$ 3,3 bilhões de receita bruta. Total de aquisições em 2024 somou R$ 4,2 bilhões de receita bruta (Lyon, Control, Marfood, Invictus, Trademark, RHMed, Nutricar, Tagg).
2026
Retomada do programa de M&A com meta de incorporar entre R$ 1,5 bilhão e R$ 2,5 bilhões em receita via novas aquisições, segundo anúncio da companhia.
O poder do M&A no segmento de facilities
Preparamos um vídeo explicando em detalhes como o Grupo GPS construiu sua estratégia de M&A no segmento de facilities e o que esse case revela sobre o potencial do crescimento inorgânico para empresas brasileiras de médio e grande porte.
O que é o segmento de facilities e por que ele atrai M&A
Facilities é o conjunto de serviços terceirizados que empresas contratam para manter sua infraestrutura operacional sem precisar desenvolver expertise interna nessas atividades. Na prática, significa exatamente o que o nome sugere em inglês: facilidades. A empresa contratante foca no seu core business; a prestadora de facilities cuida do restante.
Os principais segmentos de facilities no Brasil
🧹 Limpeza e conservação
Higienização de ambientes comerciais, industriais e públicos. É o segmento de origem do GPS e ainda responde por parcela relevante da receita do setor.
🔒 Segurança patrimonial
Vigilância, controle de acesso e monitoramento. Um dos maiores segmentos em valor, com demanda crescente especialmente em ambientes industriais e logísticos.
🔧 Manutenção predial
Manutenção de instalações elétricas, hidráulicas, ar-condicionado e equipamentos. Alta recorrência e contratos de longo prazo são características típicas.
🍽️ Alimentação corporativa
Gestão de restaurantes corporativos, catering e serviços de alimentação para empresas. Foi o segmento da maior aquisição da história do GPS (GRSA, R$ 3,3 bi).
📦 Logística indoor
Movimentação de materiais dentro de plantas industriais, armazéns e centros de distribuição. Cresceu com a expansão do e-commerce e da manufatura.
👤 Recepção e apoio administrativo
Terceirização de funções de suporte: recepcionistas, mensageiros, auxiliares administrativos. Alta mão de obra intensiva e contratos de longo prazo.
O que torna o segmento de facilities particularmente atrativo para estratégias de M&A são três características estruturais. Primeiro, a alta recorrência dos contratos: clientes de facilities não trocam de fornecedor com frequência, o que gera previsibilidade de receita. Segundo, a complementaridade dos serviços: uma empresa que já tem um cliente de limpeza pode oferecer segurança, manutenção e alimentação para a mesma base de clientes, gerando cross-sell com custo de aquisição próximo de zero. Terceiro, a fragmentação extrema do mercado, que cria oportunidades de consolidação em escala.
Um mercado de R$ 60 bilhões e 89% ainda fragmentado
O Brasil é o maior mercado de facilities da América Latina e movimenta cerca de R$ 60 bilhões anualmente, segundo dados da Associação Brasileira de Property, Workplace e Facility Management (ABRAFAC). O setor deve crescer 7,1% ao ano até 2029, impulsionado pela expansão do mercado imobiliário, industrial e de infraestrutura e pela tendência estrutural de terceirização de serviços não ligados ao core business das empresas, segundo projeção da Redirection International.
O dado mais revelador sobre o potencial de consolidação do setor, porém, é a fragmentação. Quando o artigo original foi publicado em 2021, os cinco maiores players somados detinham apenas 10,7% do mercado. Os 89,3% restantes estavam divididos entre mais de 100 mil empresas. Esse cenário continua estruturalmente semelhante em 2025, mesmo após anos de aquisições pelos líderes do setor.
Concentração de mercado em facilities: Brasil vs. outros países
Fonte: dados de referência de mercado utilizados em análise setorial. A consolidação brasileira seguiu a trajetória histórica de setores como educação e operadores de saúde, que passaram por fases intensas de M&A antes de atingir maior concentração.
Essa comparação é o argumento central para entender por que o GPS continuou adquirindo mesmo após 54 transações: há muito espaço pela frente. O Brasil de 7% de concentração está no início de uma trajetória que setores como educação e saúde já percorreram no passado. Quem entende isso chega ao mercado antes da consolidação se intensificar, o que significa melhores preços e melhores ativos disponíveis para aquisição.
Crescimento orgânico vs. inorgânico: o que os números do GPS ensinam
Uma das formas mais claras de entender o impacto do M&A nos resultados de uma empresa é separar o crescimento orgânico do crescimento inorgânico. O crescimento orgânico é o que vem da estrutura existente: novos contratos, expansão com clientes atuais, aumento de preços. O crescimento inorgânico é o que vem de aquisições: a receita de empresas adquiridas é incorporada ao resultado consolidado.
O que os números do GPS revelam sobre crescimento inorgânico
Em 2021, o GPS registrou crescimento de receita de 37% no segundo trimestre em relação ao mesmo período do ano anterior. Decompondo esse crescimento, o crescimento orgânico (com as estruturas já existentes) foi de 9,6%. O crescimento inorgânico, proveniente das aquisições concluídas no período, respondeu pela maior parte do incremento.
Em 2024, esse padrão se repetiu em maior escala. A receita cresceu 39%, impulsionada principalmente pela integração da GRSA e das demais aquisições do programa de M&A do ano, que somaram R$ 4,2 bilhões em receita bruta. O crescimento orgânico, embora consistente, contribuiu com parcela menor do crescimento total.
A lição: o M&A não substitui o crescimento orgânico. Mas ele multiplica a velocidade de crescimento de uma empresa que já tem uma operação eficiente. O GPS só conseguiu integrar 54 aquisições porque sua plataforma operacional estava preparada para receber cada nova empresa adquirida.
Cross-sell e sinergias: o modelo que multiplica o valor das aquisições
O GPS não adquire empresas apenas para somar receita. Adquire para ampliar a gama de serviços que pode oferecer à base de clientes já existente. Esse mecanismo se chama cross-sell e é o que torna o modelo de M&A do GPS particularmente eficiente. Ao adquirir uma empresa de segurança, o GPS passa a ter uma nova base de clientes para os quais pode oferecer limpeza, manutenção, logística e alimentação. O custo de aquisição desses novos contratos é muito menor do que seria numa abordagem comercial convencional, porque o relacionamento já existe.
O número que melhor ilustra essa estratégia: 81% dos clientes do GPS contratam dois ou mais serviços do grupo. Isso significa que a maioria dos relacionamentos comerciais do GPS é multi-serviço, o que aumenta a receita por cliente, reduz o risco de concentração e aumenta a barreira de saída para o cliente, que precisaria contratar múltiplos fornecedores alternativos para substituir o GPS.
Ponto-chave sobre sinergias em M&A: A sinergia de cross-sell só funciona quando as empresas adquiridas são complementares, não concorrentes. O GPS não adquire outras empresas de limpeza para eliminar concorrentes. Adquire empresas de segurança, alimentação e manutenção para ampliar a proposta de valor para a mesma base de clientes. Esse é o modelo de aquisição que gera mais valor no segmento de facilities.
O que esse case revela para empresários de médio porte
O case do GPS é estudado por investidores e analistas de mercado, mas o que ele revela para o empresário de médio porte do segmento de facilities ou de setores igualmente fragmentados é ainda mais relevante.
A primeira lição é que fragmentação é oportunidade. Se você opera num setor onde os cinco maiores players somam menos de 15% do mercado, você está num ambiente onde o crescimento inorgânico pode ser acelerado pela própria dinâmica setorial. A consolidação vai acontecer. A questão é se você vai ser o consolidador ou o ativo que será adquirido.
A segunda lição é que preparação define o lado da mesa em que você vai sentar. Empresas que chegam a um processo de M&A com valuation definido, documentação em ordem e uma tese clara de valor tendem a negociar em condições muito melhores do que aquelas que respondem a uma abordagem sem preparo. Isso vale tanto para quem quer vender quanto para quem quer adquirir.
A terceira lição é que o crescimento inorgânico exige uma plataforma operacional preparada. O GPS conseguiu integrar 54 aquisições porque desenvolveu processos de integração replicáveis. Empresas que adquirem sem ter esse processo estruturado tendem a destruir valor nas aquisições, mesmo quando os ativos adquiridos são de qualidade.
Se você opera no segmento de facilities
- →O setor movimenta R$ 60 bilhões/ano com crescimento projetado de 7,1% ao ano até 2029
- →A fragmentação do mercado brasileiro cria janela real de crescimento inorgânico para quem tem escala para adquirir
- →Compradores estratégicos como o GPS e outros grupos do setor estão ativamente mapeando alvos de aquisição
O que uma boutique de M&A faz nesse contexto
Na Valore Brasil, acompanhamos de perto os movimentos de consolidação em setores como facilities, tecnologia, saúde e agronegócio. São mais de 15 anos de atuação, mais de R$ 4 bilhões em transações assessoradas e mais de 1.000 projetos de M&A e valuation realizados, com histórico documentado no nosso track record de transações. Se você opera num setor em fase de consolidação e quer entender como se posicionar, a conversa começa com uma avaliação do momento e do valor do seu negócio.
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